sábado, 2 de maio de 2009

No altar da noite

Senhora, caio de joelho aos teus pés.
Eu imploro, quarde-me no aconchego da tua luz, acuda teu filho.
Tu és a santa de todos mares, és a mãe dos aflitos, és a lucidez dos loucos.
Senhora, desvirgine essa dor que me acabrunha,
Seja a dona do meu ventre, mande ela embora.


Não me deixe adormecer na frialdade dessas horas.
Leve-me a loucura se esse for o único jeito de me guiar para longe daqui.

Oh, minha santa, minha mãe, minha senhora,
Abençoe esse teu filho caído, como fazes com os lobos.
Finque tua honrosa espada de prata no coração desse assombro que se espalha na floresta da minha alma.

(A casa dos invisíveis)

sexta-feira, 1 de maio de 2009

A arte de saber ser

O que seria de mim sem esse meu dom de me enganar?
É nas águas sujas desse engano que me banho,
São as águas sujas desse engano que reflete minha sincera face.
O amor que acolhi tornou-se perverso,
Por eu me recusar a expor minha desgraça.
O que seria de mim sem esse meu dom de suavizar as dores do meu engano?
É nessa suavidade que crio artifícios e iludo os atraentes e atentos olhos do suicídio
É essa suavidade Que com zelosas mãos manuseia minhas falas, manipula minha lisura.

Nada, é o que eu seria.
Tudo é mortal demais sem esse meu eu,
E o encantamento torna-se previsível.

(A casa dos invisíveis)

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O acolhedor

Venho de muitas saudades
Cavalgando pelas lembranças de antigos amores.
Sou o rastro de muitas eras, e morri tantas vezes
Que nem me lembro mais da minha primeira infância.
Sou quem que levanta o véu da mãe ajoelha sobre o solo estéril do luto,
Sou quem beija sua fronte e sussurra um conforto em seu ouvido.
Sou quem sopra um sopro de vida no rosto dos suicidas.
Sou um segredo que todos sabem, mas poucos querem acreditar.
Sou a generosa sensação que ninguém sabe explicar.
Já fui homem, já fui mulher, já tive nomes e pátrias,
Hoje muitos juram que sou anjo,
Mas sou apenas a fé da alma.

(A casa dos invisíveis)

Se eu morresse amanhã!

Se eu morresse amanhã, viria ao menos

Fechar meus olhos minha triste irmã;

Minha mãe de saudades morreria

Se eu morresse amanhã!


Quanta glória pressinto em meu futuro!

Que aurora de porvir e que manhã!

Eu perdera chorando essas coroas

Se eu morresse amanhã!


Que sol! que céu azul! que dove n'alva

Acorda a natureza mais loucã!

Não me batera tanto amor no peito

Se eu morresse amanhã!


Mas essa dor da vida que devora

A ânsia de glória, o dolorido afã...

A dor no peito emudecera ao menos

Se eu morresse amanhã!

(Álvares de Azevedo)

Adeus, meus Sonhos!

Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!

Não levo da existência uma saudade!

E tanta vida que meu peito enchia

Morreu na minha triste mocidade!

Misérrimo! Votei meus pobres dias

À sina doida de um amor sem fruto,

E minh'alma na treva agora dorme

Como um olhar que a morte envolve em luto.

Que me resta, meu Deus?

Morra comigo

A estrela de meus cândidos amores,

Já não vejo no meu peito morto

Um punhado sequer de murchas flores!

(Álvares de Azevedo)